Epaço Pagão
 

 
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Um canto na rede voltado para assuntos de Wicca, Magia e Paganismo, mantido pelo carioca Leo da Luz. Abençoados sejam
 
 
   
 
segunda-feira, maio 24, 2004
 
Lilith é pagã?

Quem freqüenta listas sobre paganismo volta e meia dá de cara com mensagens sobre Lilith, que parece exercer um fascínio sobre as adolescentes. Mas o que é ela? A melhor resposta que já encontrei – pelos motivos certos e errados – está no texto abaixo. Leiam e vejam meus comentários no pé.

TUDO QUE VOCÊ SEMPRE QUIS SABER SOBRE LILITH!

Por Judy Weinberg
(da primeira edição de LILITH Magazine, Outono de 1976)

Tradução de Leo da Luz
Clique aqui para ler o texto original em inglês.

Se pudéssemos confiar em todas informações rabínicas e cabalísticas disponíveis a respeito da suposta predecessora de Eva, Lilith, seríamos forçados a acreditar que ela é um "feroz espírito feminino", que, apesar de frígida seduz apaixonadamente os homens quando estes dormem, e que, apesar de estéril, mata cem de seus filhos demônios diariamente. Existem dúzias de tradições conflitantes a respeito de Lilith. Se vamos descobrir e estabelecer uma imagem significativa de Lilith, essas diferentes tradições devem ser desembaraçadas fio por fio. Ainda que a tarefa não seja possível nos limitados parâmetros desse artigo, vamos começar o trabalho.

A primeira versão da Criação que associa o nome Lilith à "primeira Eva" está incluída no Alfabeto de Ben-Sira, um trabalho escrito provavelmente no período Gaônico (de 600 a 1000 EA – N.do L. A autora usa a terminologia Era Atual como substituição a Depois de Cristo). Esse relato mistura duas tradições separadas e distintas – a Lilith do Talmud e a "primeira Eva" do midrash (lendas).

Lilith no Talmud: A personalidade chamada "Lilith" no Talmud não mostra qualquer conexão com Adão. Das quatro referências específicas a Lilith no Talmud Babilônico, descobrimos apenas que ela é uma criatura alada desgrenhada com tendências ninfomaníacas (Erubin 100b, Niddah 24b, Shabbat 151b); e a mãe dos demônios (Bava Batra 73a ).

Essa caracterização de Lilith deve ter sido retirada da única menção a lilit (N.do L. Com minúsculas mesmo) na Bíblia, em Isaías 34:14:

"Aí vão se encontrar o gato do mato e a hiena, o cabrito selvagem chamará seus companheiros; aí a lilit vai descansar encontrando um lugar de repouso." (N. do L Versão da Bíblia Católica)

Especialistas traduzem freqüentemente "lilit" como "monstro da noite", associando o nome com layil, a palavra hebraica para noite; por isso, o rabino Hanina proíbe os homens de dormirem sozinhos numa casa à noite, para não serem atacados por ela (Shabbat 151b). A palavra Acádia "lilitu", um espírito feminino do vento, me parece, entretanto, uma etimologia mais correta.

"Primeira Eva": As midrash (lendas) da Gênese rabínica discutem uma "primeira Eva", mas não mencionam Lilith. De acordo com o rabino Hiya, ela "retornou ao pó"(22:7). Judá, filho do rabino Hiya, afirma que no início Deus criou Eva de Adão, mas quando Adão a viu ser feita com tendões e sangue, ficou enojado e afastou-se dela. Com isso, Deus fez a primeira Eva retornar ao nada e criou a segunda Eva de Adão (18:4).

Duas criaturas separadas e distintas – Lilith do Talmud e a primeira Eva das midrash – uniram-se em uma, tornando-se Lilith, a primeira companheira de Adão. Podemos ver esse processo no próprio Alfabeto. No começo da narrativa, Lilith é caracterizada como uma mulher (ishah). No fim da estória, entretanto, seus filhos são chamados de demônios (sheydim) e ela própria tem poderes contra os quais só é possível se proteger com um amuleto. Assim, ao aproximar sua personagem da Lilith do Talmud, o autor teve que dar a ela as características atribuídas ao personagem naquele texto.

LILITH NA CABALA: As diversas e freqüentemente contraditórias versões encontradas em textos cabalísticos subseqüentes de diferentes períodos parecem intercalar referências esparsas de fontes judaicas anteriores com mitos posteriores pinçados de influências externas. A imagem de Lilith retratadas pela literatura cabalística medieval é complexa e maligna.

Vamos examinar primeiro os mitos cabalísticos da criação de Lilith. O relato do Alfabeto é a única versão na qual Lilith é um ser independente, criado de matéria semelhante à de Adão.

O Zohar (trabalho central do misticismo judaico) desenvolve a teoria de que Adão compreendia inicialmente os elementos masculinos e femininos. Isso se baseia na afirmação (tanto do Talmud quando das midrash) que "Adão, que foi o primeiro homem, tinha duas faces completas" (Brachot 61a, Erubin 18b). O rabino Samuel ben Nachman disse: "Quando Aquele Que É Sagrado, Abençoado seja, criou o primeiro homem, Ele o criou hermafrodita." O rabino Levi diz o mesmo:

"Quando o homem foi criado, ele foi criado com duas frentes do corpo, e Ele o serrou em dois, de forma que dois corpos restaram, um feminino e um masculino (Lev. Rab. 14:1)."

O Zohar retoma o tema da bissexualidade de Adão, mas agora traça uma conexão com Lilith:

A fêmea estava ligada ao lado do macho até que Deus a lançou num sono profundo... Deus então a serrou, separando-a dele, e a adornou como uma noiva e a levou até ele, como estava escrito, "E Ele tirou um de seus lados e o fechou o lugar com carne..." Encontrei uma afirmação num antigo livro que a palavra "um" aqui significa "uma mulher" para enfrentar a Lilith original, que esteve com ele e fora concebida dele. Àquela época, entretanto, ela não era uma ajuda para ele, como está escrito, "mas para Adão, não lhe era encontrado auxílio." (134b)

Outras referências no Zohar descrevem Lilith como uma competidora para "a fêmea afixada a seu lado" (III 19a, II 276b, I 19b).

Yalkut Re'uveni, uma coleção de lendas cabalísticas do século XVII, já não concede à primeira mulher uma origem igual à de Adão, como faz o Alfabeto de Ben-Sira. Um comentário sobre Gênese 2:21 afirma:

"No começo, quando Aquele Que É Sagrado, Bendito seja, criou (a primeira) Eva, Ele não a fez da carne, mas da sujeira da terra e dos sedimentos". Adão, entretanto, foi feito apenas da terra.

A tradição cabalística tem diversos retratos de Lilith como um demônio, freqüentemente associando-a a outros espíritos femininos, como Naamah, Machlah e Agrat. Na verdade, Lilith é freqüentemente confundida com elas. Yalkut Re'uveni diz, por exemplo, que tanto Lilith quanto Naamah tiveram relações com Adão, trazendo com isso "pragas ao mundo". Entretanto, em outro ponto, Zohar identifica Naamah como "a mãe dos demônios", enquanto Lilith, ao que parece, funciona como sua governanta:

Naamah "avança e se diverte com homens e concebe dele por meio de seus sonhos luxuriosos". (Os rebentos) todos vão para a antiga Lilith, que os cria. Ela lança-se ao mundo e procura seus pequenos, e quando encontra criancinhas, ela as ataca com machados para matá-las e se insinuar em seus espíritos (Zohar III, 76b).

A conclusão dessa e de outras fontes é que Lilith não tem filhos dela. Nesse ponto, Gershom Scholem cita a Torat HaSheydim (séculos XV e XVI) na qual afirma-se que das quatro rainhas-demônio, somente Lilith é incapaz de parir; por ser frígida, ela macula a face da terra. Essas revelações são surpreendentes, quando lembramos de toda a literatura sobre os filhos de Lilith.

Lilith, a Assassina de Crianças: A tradição de Lilith como uma assassina de crianças é vista nas midrash em Números rabínico: "...como Lilith, que, quando não consegue encontrar crianças estranhas, assassina as suas próprias" (16:25). Essa Lilith parece lembrar o demônio babilônio Labartu ou Lamashtu, pois a imagem de assassina de crianças não tem base no Talmud e certamente não tem relação com a primeira Eva. Uma vez que os especialistas divergem quanto à datação de Números rabínico, é difícil determinar se o autor do Alfabeto baseou seu retrato de Lilith como o espírito maléfico que ameaça bebês nessa fonte, ou se ambos derivam de um
antecedente comum. Em todo caso, os temas de promiscuidade e matança de crianças não aparecem até Zohar (119b).

O personagem de Lilith, então, é um labirinto de contradições, interrelacionando uma variedade de lendas e tradições. Se isolarmos todos os fios de demonologia, separando as diversas interpolações de Lilitu, o espírito do vento; Labarut, a assassina de crianças; Lamashtu, a Lamia grega; Lilith, o demônio da noite; resta-nos a estória da primeira Eva, que pode ou não ter recebido em primeiro lugar o nome Lilith.

Arrancada a capa de misticismo medieval e demonologia, essa Lilith emerge como um espírito independente. Se tivesse vencido sua batalha com Adão por direitos iguais, Lilith poderia hoje representar aquela chama de criatividade original em cuja imagem as mulheres poderiam redescobrir e recriar sua história. Em vez disso, a história a exilou nas profundezas da demonologia. Apenas no século XX, quando não há mais necessidade de sheydim, Lilith, que foi obscurecida pelas brumas da demonologia nesses milhares de anos, pode ser revelada hoje como a primeira mulher na terra, igual ao homem e um espírito livre.

Comentários do tradutor

Acho esse texto sobre Lilith fundamental para todo pagão. Pela argumentação sólida e pela conclusão esquizofrênica, ele nos mostra duas coisas:

- Lilith não é nem nunca foi uma divindade pagã. Pagãos cultuarem Lilith demonstra apenas ignorância.

- Como a História, a Antropologia, a Arqueologia e a Lógica podem ser estupradas em nome da conveniência política.

Desenvolvendo um pouco o primeiro tópico. A Lilith Magazine (http://www.lilithmag.com/index.html) é uma revista voltada para mulheres judias. Isso é inteiramente coerente, pois, como o texto demonstra, Lilith é um mito judaico. Não é uma Deusa Negra nem tem patavinas a ver com o paganismo.

No texto, Judy Weinberg mostra que Lilith vem de quatro citações em textos rabínicos – provavelmente oriundos de uma obscura passagem bíblica. Sua transformação na suposta primeira mulher de Adão é obra do Alfabeto de Ben-Sira, escrito já na Alta Idade Média. E sabem o que é pior? A maior parte dos historiadores considera esse texto uma farsa. Um texto atribuído a judeus, mas escrito com intenções claramente anti-semitas – como se diz hoje do mal-falado "Protocolo dos Sábios de Sião". Ou seja, uma farsa dentro de uma farsa.

Temos pencas de Deusas Negras, das quais Hécate e Morrigan são minhas favoritas – apesar de eu não cultuar panteões. Incluir Lilith nesse rol é apenas sucumbir a uma das muitas patetices a que o paganismo foi submetido ao ser transformado em produto pop nos Estados Unidos.

Quanto ao segundo ponto que destaquei, ele está bem claro na conclusão maluca do texto. A autora passa 21 parágrafos mostrando que a Lilith demoníaca (oriunda de quatro obscuras passagens rabínicas) foi enfiada a marteladas numa outra lenda obscura de uma primeira Eva. Demonstra claramente que todas as associações entre as duas são muito posteriores à Diáspora. A rigor, a Lilith "primeira mulher" é uma invenção medieval, não uma tradição da Antigüidade hebraica. Mas eis que no final a autora decide ficar com a invenção. Como diz a piada jornalística, "se a versão é melhor que o fato, publique-se a versão".

E por quê? Conveniência política. A idéia de Lilith como a mulher que não se submeteu ao homem, por mais disparatada que seja do ponto de vista histórico, é um símbolo sob medida para o feminismo – especialmente num país permeado pelo judaico-cristianismo como os EUA.

Nós temos nossa Deusa em seus diferentes aspectos – Donzela, Mãe, Anciã, Criadora, Destruidora etc. etc. Temos modelos para todas as necessidades. No paganismo a mulher encontra uma base espiritual maravilhosa para se libertar de séculos de machismo.

Mas e uma judia? Onde uma mulher nascida na primeira das religiões misóginas (e que não pretende renegar a cultura de seus ancestrais) vai buscar um modelo para lutar por seus justos direitos? Boa pergunta... Na falta de um modelo, inventa-se.

Aliás, uma das coisas mais bizarras da conclusão do texto é que o último parágrafo faz referência a uma batalha com Adão por direitos iguais e se refere a "sua" Lilith como um espírito livre. Ganha um doce diet quem localizar no corpo do texto referências a essa luta e essa liberdade. Não há, pois isso é um enxerto moderno para transformar o personagem numa bandeira de luta político-sexual.

Ah, mas será que isso não foi obscurecido pelo machismo judaico? Será que não há uma Lilith libertária na Antigüidade pagã? Fora a passagem de Isaías, só há uma referência a ela na Antigüidade, e aí sim num texto pagão: o conto "Gilgamsh e a Árvore Huluppu". O herói sumério Gilgamesh, para quem não sabe, é o personagem da mais antiga história registrada da Humanidade, escrita em tábuas de argila há modestamente seis mil anos. No conto a Deusa Inanna pede ao herói que expulse da árvore supracitada três monstros: a serpente que não conhece encantos, o pássaro Zu e a Lilith, a donzela da desolação. Gilgamesh bota os três para correr. Lilith, diz o conto, foge para os lugares desolados que costumava assombrar.

É isso. Essa é toda a referência à dita cuja num contexto pagão – nenhuma Deusa Negra, nenhuma rebeldia, nenhuma afirmação do feminino, apenas um monstro mitológico em nada melhor que Grendel ou o Leão de Neméia.

Portanto, vamos deixar Lilith com quem a inventou e celebrar a beleza, a sensualidade, a fertilidade, a autoridade e a insubmissão das nossas Deusas – essas sim, cultuadas sob as estrelas desde a aurora dos Tempos, e não inventadas por algum cabalista medieval.

 

 
   
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