Crenças x Fatos
A idéia deste texto surgiu a partir da inacreditável reincidência do tema auto-iniciação. Nunca deixo de me surpreender ao ver como um conceito sem o mínimo embasamento lógico, semiológico ou ocultista consegue se sustentar e crescer dessa forma. Isso me remete a dois casos que valem a pena ser relatados:
- Há pouco mais de cinco anos o mundo foi tomado por uma discussão surreal: O novo milênio começava em janeiro de 2000 ou janeiro de 2001? Astrônomos, matemáticos e pessoas simplesmente sensatas tentaram de todas as formas explicar que o certo era 2001. Nem precisava tanto. Bastava pedir que a pessoa contasse até dez. Ninguém conta zero, um, dois, três... Zero é abstração. Não existe Ano Zero. Pelo calendário da Era Cristã, a dita cuja começou no Ano Um. O primeiro milênio terminou no fim do ano 1000. O segundo terminou no fim do ano 2000. Era lógica matemática das mais elementares. Ainda assim, bilhões de pessoas comemoraram a chegada do novo milênio em 31 de dezembro de 1999.
- Nos anos 80 a TV Manchete tinha um programa chamado
Documento Especial, com reportagens longas sobre assuntos polêmicos - em geral sexo e fenômenos religiosos/paranormais. O programa deu atenção especial ao crescimento das igrejas evangélicas, com destaque para as fraudes da Universal. Certa vez, mostrou um homem humilde, portador do HIV. Ele foi até a IURD, contribuiu com o pouco dinheiro que tinha, participou de um culto e foi informado que estava curado. Confiante, aceitou o desafio do programa de fazer um novo teste, que, claro, deu positivo. O sujeito foi categórico: "Não acredito nisso. Eu estou curado pelo poder de Jesus." Menos de um ano depois foi tomar satisfações com Jesus pessoalmente.
Ok, mas o que esses casos tem a ver com o tema? Ambos são situações em que os mais diversos interesses (mercadológicos no primeiro e de puro desespero no segundo) motivam crenças que, embora desmentidas pelos fatos, mantém-se fortes. A chamada auto-iniciação é somente mais uma da série. É um conceito criado por escritores com o único e exclusivo intuito de vender livros, e encontra eco no fato de a demanda pela Wicca ter crescido numa proporção infinitamente maior que a expansão dos grupos e tradições sérios - especialmente nos EUA, de onde nós imitamos praticamente tudo o que não presta.
Gente, iniciação envolve quatro coisas: reconhecimento por um grupo (a menos importante), aquisição de conhecimento (representado pelo recebimento do Livro das Sombras da tradição), morte e renascimento e alinhamento dos canais de energia. As quatro coisas são impossíveis - repito, impossíveis - de serem feitas solitariamente.
Primeiro ponto: Quem, além do próprio, reconhece a iniciação de um auto-iniciado? Ele pode dizer que não precisa de reconhecimento, mas então por que usa um termo que implica reconhecimento?
Segundo ponto: Como você, sozinho, pode receber um conhecimento que não possui? Só sendo esquizofrênico e uma personalidade revelando mistérios à outra.
Terceiro: Como uma pessoa se submete a um processo de morte e renascimento sozinha? Ela já sabe que não corre riscos, não tem o impacto do psicodrama. Um vez, diante de um grupo do qual eu fazia parte, o MillenniuM perguntou quem ali acreditava em auto-iniciação. O Fábio (aliás, por onde andas, prezado?) respondeu que sim, e o MillenniuM fez com ele uma simulação que, embora não fosse exatamente o processo de morte e renascimento de nenhuma tradição em especial, era análogo. No fim, perguntou se ele ainda acreditava em auto-iniciação. Fábio respondeu que não, pois vira que era impossível uma pessoa passar por aquilo sabendo previamente como seria.
Quarto e último: O que Cunningham não diz (talvez não soubesse, pois não consta que ele alguma vez tivesse sido iniciado no que quer que fosse) é que a iniciação envolve um poderoso alinhamento de energias. Em
Dançando com feiticeiras, Lois Bourne (integrante do coven de Gardner) fala da própria iniciação num grupo de Bruxaria Tradicional, descrevendo a intensidade do momento em que "o senhor e a senhora" abriram-lhe os canais. É isso que permite a um sacerdote controlar um Círculo com dezenas de pessoas e trazer para dentro de si a energia dos Deuses. Mas isso é algo que você só aprende um coven ou num Círculo, não num livro.
Mas e o aspecto de contato com os Deuses, apresentado pelos autores como único sentido da iniciação. Esse acontece na primeira vez que você evoca o nome Deles com emoção genuína para um feitiço ou esbat. Não é preciso ser um iniciado para ter esse contato, como não é preciso ser um iniciado para ser um bruxo. Aliás, alguns dos melhores que conheço não são.
Há uma analogia interessante. Eu pratico duas técnicas de cura. A primeira, cura prânica com cores, aprendi com Paulo Montano. Mas, se não tivesse um professor (tão bom) disponível, poderia aprender num bom livro, pois é uma técnica não-niciática. Requer aprendizado e prática para aperfeiçoamento. Um bruxo solitário ou um bruxo que, embora celebre em grupo, não passou por uma iniciação (meu caso) está na mesma situação. Ele aprende e pratica para fazer cada vez melhor aquilo que está ao seu alcance.
A outra técnica é o Reiki, que é uma prática iniciática. Minha iniciadora, Shaddya, abriu meus canais de energia. No instante seguinte o Reiki fluía de minhas mãos. Nenhum ritual de banca de revista seria capaz de operar aquela mudança em mim. Isso é uma iniciação. O resto é conversa para vender livros.
Mas então por que a auto-iniciação continua fazendo tanto sucesso - assim como os livros de Cunningham? Porque é o caminho mais fácil, mesmo que não leve a lugar nenhum. Hoje as pessoas querem tudo da forma mais rápida e menos trabalhosa possível. "A pressa é inimiga da perfeição" virou letra morta. Depois do Lava-a-Jato e do
fast food, a Wicca expressa. Nesse cenário, experimente dizer para uma pessoa que ela pode ser bruxa sozinha sem nenhum problema, mas que, se quiser se uma iniciada, vai ter que: a) achar um grupo sério com sacerdotes realmente iniciados (talvez a parte mais difícil); b) ser aceita por este grupo e c) praticar durante pelo menos um ano solar... A pessoa vai te chamar de maluco. O negócio é pra ontem!
Mas o negócio não é pra ontem, não. Bruxaria a sério (iniciada ou não) dá trabalho, toma tempo e exige dedicação. Para quem deseja o caminho do sacerdócio, a iniciação é o pináculo da trajetória, não o começo, como tentam vender esses autores. O pior é que até hoje, só conheci um "auto-iniciado" que dizia não buscar a iniciação "formal". Ué, mas se a auto-iniciação é válida, para que outra? Pano, rápido...
Claro, cada pessoa tem o direito de acreditar no que quiser. Pode perfeitamente se auto-iniciar - e comemorar datas com um ano de antecedência, acreditar que Universal cura Aids etc. etc. etc.